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A trajetória de Mãe Menininha e seu legado no candomblé

O legado histórico de Mãe Menininha na Bahia A história de Mãe Menininha do Gantois representa um dos capítulos mais importantes para a consolidação das religiões de matriz africana no Brasil. Nascida Maria Escolástica da Conceição Nazaré em 1894, ela se tornou uma figura de…

Atualizado em 28/08 18:35 6 min leitura 👁 11 visualizações

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Imagem da matéria: Como Mãe Menininha do Gantois se tornou a maior mãe de santo do Brasil e aconselhou de Pel

O legado histórico de Mãe Menininha na Bahia

A história de Mãe Menininha do Gantois representa um dos capítulos mais importantes para a consolidação das religiões de matriz africana no Brasil. Nascida Maria Escolástica da Conceição Nazaré em 1894, ela se tornou uma figura de liderança espiritual e política inquestionável no estado da Bahia. No dia 10 de fevereiro de 1984, o terreiro do Gantois, localizado no bairro da Federação, em Salvador, reuniu grandes nomes da cultura e da política nacional para celebrar seus 90 anos de vida. Entre os presentes estavam Antônio Carlos Magalhães, João Durval Carneiro, Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia e Jorge Amado.

Foto em preto e branco de Menininha do Gantois sentada, de perfil, em uma sala. Ao fundo, na parede, há um crucifixo.
Como Mãe Menininha do Gantois se tornou a maior mãe de santo do Brasil e aconselhou de Pelé a Jorge Amado

A relevância de sua atuação é lembrada de forma marcante, especialmente na data que marca os 40 anos de sua morte, ocorrida em 13 de agosto de 1986. De acordo com o sociólogo e antropólogo Rodney William Eugênio, doutor pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, ela era considerada a ialorixá das ialorixás. Sua capacidade de conciliação e liderança fazia com que todas as lideranças religiosas mais velhas da Bahia respeitassem suas decisões e orientações. A sua voz funcionava como um consenso necessário para o direcionamento de questões complexas da comunidade.

O termo ialorixá, que define a função popularmente conhecida como mãe de santo, aplica-se perfeitamente à trajetória da líder religiosa. Filha única de Maria da Glória e Joaquim Assunção, ela assumiu o comando do terreiro Ilê Iaomim Axé Iamassê em fevereiro de 1922, com apenas 28 anos de idade. Ela sucedeu sua tia-avó Pulquéria Maria da Conceição e permaneceu no posto por 64 anos, estabelecendo um recorde histórico de permanência na liderança da casa fundada em 1849 por sua bisavó Maria Júlia da Conceição Nazareth.

A resistência de Menininha contra a perseguição religiosa

A trajetória de resistência liderada por Menininha ocorreu em um período de intensa perseguição do Estado contra as práticas de matriz africana. Para garantir a sobrevivência física e cultural do terreiro do Gantois, ela adotou estratégias complexas de convivência social e política. Declarar-se católica e frequentar missas regularmente na Igreja de Santa Escolástica era uma dessas táticas de preservação diante do preconceito institucionalizado. Essa dupla pertença religiosa permitiu que ela transitasse por diferentes esferas de poder sem abandonar suas convicções tradicionais.

A atuação estratégica da líder religiosa também envolveu a criação de uma rede de proteção com intelectuais, artistas e políticos influentes da época. Personalidades de destaque nacional buscavam seus conselhos e proteção espiritual antes de tomar decisões de grande impacto público. Entre os visitantes frequentes de sua casa estavam os atletas Pelé, Roberto Dinamite e Djalma Santos, além de políticos de diferentes espectros, incluindo o atual presidente Lula, Paulo Maluf, Adhemar de Barros, Getúlio Vargas, João Goulart e João Baptista Figueiredo.

Essa rede de contatos foi fundamental para mitigar os efeitos da Lei de Jogos e Costumes de 1930, que enquadrava as práticas religiosas africanas como contravenções. Durante décadas, as batidas policiais eram frequentes nos terreiros baianos, resultando na apreensão de objetos sagrados e na agressão de fiéis. A situação jurídica e social das casas de candomblé só começou a mudar significativamente em 1976, quando o governador da Bahia, Roberto Santos, assinou um decreto que isentava os templos do licenciamento policial exigido para eventos de diversão pública.

O reconhecimento cultural de Menininha no cenário nacional

O reconhecimento nacional consolidou a imagem de Menininha como um patrimônio cultural e espiritual do povo brasileiro. Em 1972, o compositor Dorival Caymmi lançou a famosa canção Oração de Mãe Menininha, uma homenagem que ampliou ainda mais a visibilidade do terreiro do Gantois. A música ajudou a desmistificar o candomblé para o público geral, apresentando a beleza e a profundidade dos rituais de forma respeitosa e artística. Esse movimento de abertura cultural foi essencial para a aceitação progressiva da religião nas capitais do país.

A biografia oficial divulgada pela administração do terreiro destaca que ela foi mãe, mulher e líder religiosa, tornando-se uma verdadeira instituição nacional. Seus ensinamentos deixaram lições profundas de poder, humildade e respeito mútuo, fundamentais para a perpetuação da fé de matriz africana na Bahia. Sua história pessoal confunde-se com a própria história do candomblé no Brasil, dada a sua descendência direta de linhagens nobres da Nigéria que ajudaram a implantar o culto em território baiano.

No âmbito familiar, ela manteve o casamento com o advogado Álvaro MacDowell de Oliveira, com quem teve duas filhas, Cleusa e Carmem. Cleusa assumiu a sucessão do terreiro após a morte da mãe, enquanto Carmem faleceu em 2025, aos 98 anos. Embora o marido fosse um apoiador ativo das causas do candomblé e atuasse na defesa jurídica do terreiro, Menininha determinou que ele não residiria no espaço sagrado do Gantois, preservando a autonomia e a tradição do local de culto.

O papel feminino destacado por Menininha na liderança espiritual

A liderança exercida por Menininha exemplifica a centralidade das mulheres na condução das religiões de matriz africana no Brasil. De acordo com pesquisas disponíveis na Wikipédia, a estrutura matrifocal de muitos terreiros de candomblé consolidou-se como uma resposta direta às condições adversas enfrentadas pelas populações negras durante e após o período da escravidão. As mulheres assumiram a responsabilidade de preservar a memória ancestral, os segredos dos rituais e a coesão das comunidades em torno do sagrado.

Essas sacerdotisas conciliavam as obrigações religiosas com atividades econômicas autônomas, como o comércio de alimentos e a prestação de serviços urbanos. Esta independência financeira garantia a manutenção dos terreiros e fortalecia a autoridade feminina dentro e fora do espaço religioso. O Gantois destaca-se historicamente por essa linhagem de mulheres fortes que souberam dialogar com a sociedade envolvente sem perder a essência de suas tradições litúrgicas.

O legado de articulação política e diálogo inter-religioso deixado pela ialorixá continua a inspirar novas gerações de sacerdotes e pesquisadores das ciências das religiões. O pesquisador David Dias, da PUC-SP, aponta que a sobrevivência do candomblé dependeu diretamente dessas alianças estratégicas construídas ao longo do século 20. A capacidade de transitar entre o sagrado e o profano, mantendo a dignidade e o respeito à ancestralidade, define a importância histórica dessa grande líder religiosa para o Brasil contemporâneo.

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